O século XX foi o século da expansão das cidades, das grandes avenidas, dos viadutos e da infraestrutura de concreto. O século XXI será o século da adaptação às mudanças climáticas, da resiliência urbana e da valorização da infraestrutura verde.
Nesse novo contexto, parques, áreas verdes e espaços públicos deixaram de ser apenas locais de lazer. Tornaram-se equipamentos essenciais para reduzir as ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar, controlar enchentes, conservar a biodiversidade, promover a saúde e fortalecer a convivência entre as pessoas.
Pinheiros reúne alguns dos exemplos mais significativos dessa transformação. Os parques Villa-Lobos, Cândido Portinari e do Povo convivem com espaços públicos que fazem parte da identidade do bairro, como a Praças das Corujas, Pôr do Sol, Horácio Lafer, Rafael Sapienza, Horácio Sabino, Província de Saitama, a Praça Dr. Fernando de Oliveira e muitas outras menores. Cada um desses espaços revela uma forma distinta de compreender e administrar a cidade.
Nos últimos anos, os parques Villa-Lobos e Cândido Portinari passaram a receber um número crescente de grandes eventos. O Parque do Povo também ampliou sua programação cultural e esportiva. Ao mesmo tempo, a Praça do Pôr do Sol foi cercada e passou a ter controle de acesso. Em contraste, a Praça das Corujas e a Praça Horácio Lafer permanecem abertas, acessíveis e integradas ao cotidiano dos moradores.
O debate, porém, não deve ser reduzido à oposição entre parques abertos ou fechados, nem entre concessão pública ou privada. A verdadeira questão é como conciliar convivência, cultura, lazer, conservação ambiental e qualidade de vida.
Assim como uma ponte possui limite de carga e uma avenida tem capacidade de tráfego, parques e áreas verdes também possuem capacidade de suporte ambiental. Quando esse limite é ultrapassado, comprometem-se justamente os serviços ecossistêmicos que fazem desses espaços uma infraestrutura indispensável para a cidade.
Isso não significa ser contra eventos ou novas formas de gestão. Significa reconhecer que sua função principal continua sendo pública, ambiental e social. A atividade econômica deve ser compatível com a conservação da natureza e com o bem-estar da população.
As cidades que melhor enfrentarão os desafios do século XXI serão aquelas que compreenderem que parques, áreas verdes e espaços públicos não são terrenos disponíveis para qualquer uso, nem apenas equipamentos de lazer. São uma infraestrutura estratégica para a adaptação às mudanças climáticas, para a saúde pública, para a biodiversidade e para a qualidade de vida.
Pinheiros já vive esse debate. As escolhas feitas hoje sobre suas áreas verdes ajudarão a definir o futuro do bairro e servirão de referência para toda São Paulo.
Porque, no século XXI, uma cidade não será reconhecida apenas pelos edifícios que constrói ou pelas obras que inaugura. Será reconhecida, sobretudo, pela capacidade de preservar seus parques, praças, suas áreas verdes e seus espaços públicos como patrimônio ambiental, social e climático e das futuras gerações.
*Ivan Carlos Maglio é engenheiro civil, doutor em Saúde Ambiental e especialista em Planejamento Urbano e Gestão Ambiental.