Concessão de parques não pode significar perda do verde e da função ambiental

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Os parques Villa-Lobos e Cândido Portinari exercem papel estratégico para São Paulo muito além do lazer. Em uma cidade cada vez mais adensada, impermeabilizada e pressionada pelas mudanças climáticas, essas áreas funcionam como infraestrutura ambiental essencial para redução de ilhas de calor, drenagem urbana, permeabilidade do solo, melhoria da qualidade do ar e qualidade de vida.
O debate sobre as concessões deixou de ser apenas administrativo ou econômico. Tornou-se uma questão urbana, ambiental e de saúde pública. Em recente artigo publicado na ‘Folha de S.Paulo’, Mauro Calliari descreveu um cenário de excesso de marcas, tapumes, “experiências patrocinadas” e ocupação comercial crescente nos parques paulistanos. A observação de que “tudo é patrocinado” sintetiza uma percepção cada vez mais presente entre frequentadores: a perda gradual do silêncio, do verde e do caráter contemplativo desses espaços.
A questão não é ser contra concessões ou atividades culturais. O problema surge quando a lógica econômica passa a prevalecer sobre a função ambiental e pública dos parques. O risco é transformar áreas fundamentais para o equilíbrio climático urbano em plataformas permanentes de exploração comercial e entretenimento intensivo.

O parecer técnico elaborado sobre os parques conclui que a ampliação excessiva de eventos e atividades de alto impacto vem aumentando significativamente a pressão sobre áreas verdes já intensamente utilizadas pela população, especialmente aos fins de semana e feriados.
A análise aponta impactos cumulativos importantes: aumento de ruídos, compactação do solo, pressão sobre vegetação e fauna, geração de resíduos, perda de conforto ambiental e descaracterização paisagística. Também alerta que a conformidade formal das concessões não elimina a necessidade de avaliação integrada dos impactos urbanos e ambientais.
O problema já deixou de ser apenas técnico. Tornou-se perceptível ao cidadão comum. A saturação visual, os eventos sucessivos, o excesso de publicidade e a ocupação crescente por estruturas temporárias revelam uma mudança silenciosa na função dos parques públicos paulistanos.
Mas a questão vai além do incômodo urbano. O que está em jogo é a perda progressiva da função ecológica dessas áreas em uma cidade cada vez mais quente e vulnerável aos eventos climáticos extremos. Parques urbanos não são apenas áreas de lazer: são infraestrutura ambiental estratégica para adaptação climática e saúde pública.
O parecer defende limites técnicos mais claros para grandes eventos, monitoramento ambiental permanente e definição da capacidade de suporte dos parques. Também recomenda maior transparência nos contratos, fortalecimento da participação pública e avaliação contínua de ruído, permeabilidade, vegetação e conforto térmico.
No âmbito do Inquérito Civil aberto pelo Ministério Público, o documento sugere aprofundar a investigação sobre a compatibilidade do atual modelo de concessão com a função ecológica e pública dos parques, incluindo análise de impactos cumulativos e eventual necessidade de estudos ambientais específicos para atividades de maior porte.
Em um cenário de aquecimento urbano crescente, parques metropolitanos não podem ser tratados apenas como ativos econômicos. São ativos ambientais estratégicos para resiliência urbana, equilíbrio climático e qualidade de vida. Preservar sua função ecológica é preservar a própria cidade.

*Ivan Carlos Maglio é engenheiro civil, Mestre e Doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutor pela FAU-USP em adaptação climática e infraestrutura verde. Atua há mais de quatro décadas em planejamento urbano, ambiental e mudanças climáticas. Diretor da Política e Planejamento Ambiental Ltda.


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