São Paulo entre o adensamento e o risco climático
São Paulo tornou-se um dos principais laboratórios urbanos da América Latina para discutir um dos grandes dilemas contemporâneos: como adensar as cidades sem ampliar os riscos climáticos e ambientais.
Nos últimos anos, o Plano Diretor e a revisão do zoneamento ampliaram significativamente o potencial construtivo ao longo dos eixos de transporte público. A lógica parece correta: aproximar moradia, emprego e mobilidade, reduzindo deslocamentos e emissões.
Mas a experiência paulistana revela uma contradição crescente.
Ao mesmo tempo em que a cidade acelera a verticalização, aumentam enchentes; ilhas de calor; impermeabilização do solo; pressão sobre drenagem, energia e mobilidade e a perda de cobertura vegetal.
O problema não é a densidade em si. Cidades compactas podem ser mais sustentáveis. O problema é promover adensamento sem planejamento ambiental integrado.
A revisão do PDE e do zoneamento expandiu fortemente as ZEUs — áreas de transformação urbana próximas ao transporte — sem uma Avaliação Ambiental Estratégica capaz de responder questões essenciais: qual a capacidade real da infraestrutura? Quais os impactos cumulativos da verticalização? Quais bairros perderão permeabilidade e ventilação? E como integrar o crescimento urbano à adaptação climática?
A cidade passou a discutir não apenas “quanto construir”, mas: onde construir; com qual infraestrutura; sob quais limites ambientaise para qual modelo urbano.
A ausência dessa visão integrada levou à judicialização da revisão do zoneamento e aprofundou o debate sobre governança territorial, participação pública e transparência.
São Paulo hoje antecipa um desafio global enfrentado também por outras cidades mundiais e pelas maiores cidades brasileira: como crescer sem ampliar vulnerabilidades climáticas e desigualdades territoriais.
A adaptação climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Tornou-se uma questão central do planejamento urbano contemporâneo.
O futuro das cidades dependerá não apenas de mais edifícios ou novos corredores de transporte, mas da capacidade de integrar infraestrutura verde, drenagem sustentável, soluções baseadas na natureza e justiça climática ao centro das políticas urbanas.
*Ivan Carlos Maglio é engenheiro civil, doutor em Saúde Pública pela USP e pós-doutor em Adaptação Climática e Planejamento Urbano (IEA-USP/FAU-USP). Foi diretor de Planejamento Urbano da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo e coordenador do Plano Diretor Estratégico de 2002 e da Lei de Uso e Ocupação do Solo de 2004.