Verticalização faz Pinheiros perder mais de 1.400 árvores
A devastadora retirada de árvores em Pinheiros expõe com clareza a postura antiecológica e negligente das construtoras e dos órgãos públicos, principalmente pela Cetesb. Enquanto a cidade e o estado encarecem absurdamente projetos de infraestrutura, a natureza urbana é sacrificada sem qualquer critério técnico ou transparência. Dados mostram que, nos últimos dois anos, Pinheiros sofreu um déficit de mais de 1.400 árvores, resultado da diferença entre espécies removidas e plantadas. Esse número agrava o déficit histórico: entre 2013 e 2021, a cidade perdeu aproximadamente 4% de sua arborização de rua — cerca de 26 mil árvores — conforme levantamento que abrangeu mais de 652 mil árvores. Mais alarmante: zonas oeste e sudoeste sofrem taxa de queda de árvores até o dobro da média municipal, alimentando o efeito “cânion urbano”.
Quedas de 2 mil árvores
São Paulo registra cerca de 2.000 quedas de árvores por ano nas ruas — sem contar os parques —, com ocorrências que vão desde galhos soltos até árvores inteiras desabando durante tempestades . Em janeiro, vendavais de até 94 km/h derrubaram 250 árvores em apenas dois dias. Já em novembro de 2023, a queda de galhos derrubou fiações e deixou mais de 2 milhões de moradores sem energia.
456 quedas de árvores
Pesquisa da USP e UNIFESP que analisou 456 quedas em regiões centrais identificou os principais vilões: madeira degradada, raízes sufocadas por calçadas e podas inadequadas. Outro estudo comprovou que a altura dos prédios, idade dos bairros e largura de calçadas são determinantes no risco de queda. São dados técnicos ignorados rotineiramente por gestores, que favorecem empreendimentos imobiliários e interrompem o espaço vital das árvores — contrariando protocolos internacionais de arborização urbana.
Voltar à era pré-industrial?
E o problema vai além da estética. A cobertura vegetal além de reduzir a criminalidade — estudos demonstram que 10% a mais de árvores está associado a 1,2% menos crimes — produz serviços ecossistêmicos reais: redução das ilhas de calor, sequestro de carbono, permeabilização de solo e qualidade do ar. Perder isso é voltar à era pré‑industrial, longe das cidades modernas que priorizam natureza e saúde pública.
Compensação frágil e devastadora da CETESB
No lugar de planos consistentes, São Paulo virou palco de poda brutal e supostamente “criminosa” pela Enel e compensação frágil e devastadora, principalmente pela CETESB, que promove licenças sem estudos aprofundados, a pedido do Governo para o Governo, com mera troca de área de vegetação, por equivalências monetárias e maior volume de obras, sem reconstrução efetiva do ‘greencover’ (cobertura verde). A retirada de árvores tem autorizações esdrúxulas, sem garantias ambientais, enquanto os acordos de compensação não garantem reposição real. A Cia. Ambiental do Estado de São Paulo licenciou e autorizou a retirada de mais de 10 mil árvores adultas (cinquentenárias) nos últimos dois anos, somente dentro do Instituto Butantã. Para a Sabesp mais de mil árvores e outras centenas para órgãos diretos do governo estadual e municipal. As Secretarias do Verde e Meio Ambiente também são criticadas por ambientalistas e moradores.
Sem mudanças urgentes, caminhamos para semanas de apagões, verões escaldantes e trechos urbanos tão frios quanto selvas de pedra — uma herança tóxica das campanhas publicitárias que prometem verde eterno, mas entregam cimento ensolarado e ruas sufocadas.