Buzinas, britadeiras, pancadões, bares lotados e shows ao ar livre compõem a rotina barulhenta que tem tirado o sono de milhares de paulistanos, especialmente na Zona Oeste. Para enfrentar o problema, grupos de moradores de diferentes bairros se uniram para criar a Frente Cidadã pela Despoluição Sonora da cidade de São Paulo.
Pressionar o poder público
A frente reúne cinco movimentos: vizinhos da Avenida Paulista, do Allianz Parque, do Parque da Água Branca, do Instituto Butantan e do Vale do Anhangabaú. O objetivo é pressionar o poder público para ações mais firmes contra o excesso de ruído, que, segundo especialistas, afeta diretamente a saúde física e mental da população.
"A cidade precisa de uma lei de poluição sonora pautada na saúde, não só em regras pontuais para bares ou eventos", defende Marcelo Sando, idealizador do movimento e do grupo "Paulista Boa Para Todos", em entrevista ao G1.
Zona Oeste é uma das campeãs em barulho
Na Zona Oeste, os problemas são evidentes. O Allianz Parque, na Pompeia, acumula reclamações antigas por shows e jogos com som elevado. Em 2022, o estádio chegou a receber uma notificação de fechamento administrativo por descumprir a Lei do PSIU. Já no Parque da Água Branca, em Perdizes, eventos culturais e obras recentes têm gerado aumento significativo de barulho, afetando moradores próximos.
Bares e ‘pancadões”
Em Pinheiros, Vila Madalena, Morumbi e Santo Amaro bares e restaurantes seguem como fontes frequentes de poluição sonora, além dos famigerados e temidos ‘pancadões’, com suas “paredes de som” que infernizam os finais de semana nas comunidades de Paraisópolis, Colombo e muitas outras. Segundo levantamento da Gazeta de Pinheiros, a região concentra alto número de denúncias no 156, sem resposta efetiva. Moradores relatam que o excesso de mesas nas calçadas e música alta durante toda a madrugada prejudicam o descanso, além de atrair aglomerações.
100 mil chamados
Entre janeiro e maio de 2024, a Polícia Militar registrou mais de 100 mil chamados relacionados a perturbação do sossego e “pancadões” na capital e Grande São Paulo. Já o Programa de Silêncio Urbano (PSIU) recebeu 24.858 reclamações até julho, uma média de 134 por dia.
Apesar disso, no ano passado, menos de 3% das denúncias feitas ao 156 resultaram em punições. Para o médico sanitarista Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, o ruído urbano "não se restringe a um bairro, está espalhado pela metrópole", afetando o sono, aumentando o estresse e até elevando riscos de hipertensão
Operações-surpresa
A Prefeitura afirma que intensificou fiscalizações em parceria com a GCM e a PM, com operações-surpresa principalmente aos fins de semana. Contudo, moradores criticam a falta de clareza sobre as responsabilidades entre os órgãos públicos e cobram punições mais efetivas.
"Não importa se vem de obra, bar ou show. O som não respeita muros nem fronteiras", diz Sando. "Precisamos garantir o direito básico ao silêncio e ao descanso."