Destruindo a mata para produzir vacinas? O dilema do Instituto Butantan em área tombada

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Em 2025, o poder público e o Instituto Butantan protagonizam uma controvérsia que envolve meio ambiente, patrimônio histórico e modelo urbano. O projeto de lei PL 691/2025, em tramitação na Câmara Municipal de São Paulo, visa elevar o gabarito – ou seja, a altura permitida – das edificações na área da instituição, autorizando a verticalização de prédios que hoje ameaçam milhares de árvores (para ser exato mais de 6.629 árvores cinquentenárias). Críticos denunciam que a cidade, que se proclama sustentável, caminha para um modelo precariamente urbano e insustentável, em linha com a lógica rodoviarista predatória apontada pelo urbanista Rafael Drummond, ex-conselheiro do CMTT.
MP analisa suposto crime ambiental
No ofício enviado ao Ministério Público, a Fundação Butantan confirmou que a expansão industrial do Instituto prevê o corte de aproximadamente 6.629 árvores – número que ultrapassa 7 mil em diversas reportagens. A justificativa apresentada é a ampliação da produção de vacinas: desde soros anti-inflamatórios até imunizantes contra dengue e influenza, além de estacionamentos, restaurantes e escritórios, voltados para ampliação ao turismo local. No entanto, moradores, ambientalistas e entidades apontam que a região é tombada desde 1981 e faz parte de um cinturão verde essencial à qualidade de vida da região.

Questionamentos ao replantio
Ademais, mesmo com a promessa de plantio de mais de 9.000 mudas nativas, emergem questionamentos: especialistas afirmam que espécies adultas não são substituíveis por mudas, já que árvores maduras oferecem abrigo e estabilidade ao ecossistema. O coletivo ‘Rede Nosso Parque’ reforça: “espécies de animais não mudam de local” — em outras palavras, garantir a biodiversidade exige muito mais do que repor árvores.
CETESB “aprova” tudo
O silêncio tem sido a resposta da CETESB, diante de contestações sobre licenças ambientais. A ONG “Rede Butantã” denuncia que, desde 2019, os moradores recebem apenas informações vagas sobre as obras, incluindo o suposto desmatamento de um bosque no entorno para a construção de restaurante de R$ 65 milhões, duas garagens de seis andares e edifício de apoio, voltados para o turismo, totalizando cerca de 400 árvores removidas em áreas tecnicamente protegidas.
Paralisação da expansão
Tais ações vêm ocorrendo mesmo com pronunciamentos do Ministério Público recomendando a paralisação da expansão e apontamentos de possíveis licenças irregulares do CONDEPHAAT, do qual ex-presidentes da Fundação Butantan fariam parte. São sinais de uma governança ao mesmo tempo opaca e desvirtuada de princípios ambientais e históricos.
Além da destruição da cobertura vegetal, a verticalização do local traz implicações urbanísticas graves: aumentam o trânsito, o barulho e a poluição na Zona Oeste. Novas garagens e edificações incentivam o uso de transportes individuais, contrariando as diretrizes de mobilidade urbana sustentável. O urbanista Rafael Drummond critica: "a gestão se diz sustentável, mas investe em um modelo urbano insustentável, voltado à lógica rodoviarista e à ocupação predatória".
Mudança de gabarito
Especialistas do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura alertam que a mudança de gabarito – de atualmente limitado a 25 metros para até 48 metros – trará "sério prejuízo à ambiência dos edifícios do eixo histórico" e violará as diretrizes da “área envoltória” do patrimônio.
Recursos públicos sem transparência
Outro ponto crítico no debate é a atuação da Fundação Butantan — uma entidade privada que, conforme reportagem do MP de Contas, faz uso de recursos públicos sem transparência, misturando interesses institucionais e privados. Essa estrutura híbrida agrava a falta de accountability e torna ainda mais opaco o processo de tomada de decisão.
SOS Butantan
A resposta da sociedade foi imediata: manifestações têm ocorrido desde maio, com o SOS Butantan convocando caminhadas de protesto. Os organizadores defendem a expansão da capacidade de produção de vacinas, mas se opõem veementemente ao modelo escolhido. A comunidade propõe, como alternativa, a ampliação em áreas como Araçariguama (Fazenda São Joaquim), com menos impacto ambiental e custos potencialmente menores.
A mobilização resultou em encaminhamentos ao MP, que já analisa as licenças – inclusive do CONDEPHAAT – e o papel da CETESB nas autorizações.


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