Barulho de aviões continua tirando o sossego da zona oeste paulistana

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O céu da zona oeste de São Paulo virou fonte de incômodo diário para milhares de moradores. Em bairros como Pinheiros, Vila Madalena, Perdizes, Lapa, Morumbi e Butantã, o aumento da frequência de voos e a mudança nas rotas do Aeroporto de Congonhas vêm provocando uma enxurrada de reclamações. O problema não é recente, mas se intensificou com o projeto TMA-SP Neo (Restruturação do maior terminal da América Latina), que alterou as trajetórias das aeronaves a partir de 2021.

Depoimentos alarmantes

“Mais de 25 aviões passam em menos de uma hora. Não dá para trabalhar, descansar, muito menos abrir a janela”, desabafa um morador de Pinheiros em rede social. Relatos como esse se multiplicam em aplicativos de bairro e nas ouvidorias da Prefeitura.
Estudos técnicos indicam que níveis de ruído superiores a 85 decibéis provocam estresse, insônia, hipertensão e até perda auditiva. Em alguns pontos da zona oeste, os picos sonoros chegam a 110 decibéis — mais do que um martelo pneumático em funcionamento.

Queixa aumentam em 48%
Segundo o programa Silêncio Urbano (Psiu), as queixas por barulho aumentaram 48% na cidade desde 2019, com destaque para áreas sob as novas rotas de Congonhas. “Estamos diante de um problema grave de saúde pública, invisível e negligenciado”, alerta o especialista Fábio Scatolini, do ITA.
“A cidade é dos habitantes — e eles merecem viver com saúde e dignidade”, afirmou a advogada Raphaela Galletti, da OAB Pinheiros, em audiência pública recente na Câmara Municipal.

Decea e Anac não resolvem
O Decea (Departamento0 de Controle do Espaço Aéreo)  alega que o TMA-SP Neo reduziu o impacto sonoro em 15%, mas admite concentração de ruído em novos pontos. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) promete revisar o plano de zoneamento de ruído de Congonhas após a concessão definitiva do terminal. A Prefeitura, por sua vez, estuda parcerias com a Cetesb para aferição técnica do ruído.
Enquanto os órgãos discutem, a população segue à mercê de um problema diário e crescente. O custo de uma janela antirruído, por exemplo, pode ultrapassar R$ 8 mil — valor fora do alcance da maioria das famílias e que muitas vezes não resolve o problema.

Conflito urbano
Moradores defendem que a questão vá além da aviação civil: trata-se de um conflito urbano que exige prioridade. “Não estamos contra o aeroporto, mas queremos ser ouvidos. Precisamos de soluções, não de promessas”, resume um morador da Lapa.
O que antes era visto como privilégio de morar em uma área arborizada e tranquila da cidade virou um problema constante. A zona oeste de São Paulo vive hoje uma disputa entre eficiência aérea e direito ao silêncio. E os moradores querem que, pela primeira vez, o céu também lhes pertença.


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