O icônico bairro de São Paulo é um laboratório de ensaio no triângulo de nove quadras, entre a junção da av. Rebouças, rua dos Pinheiros e Pedroso de Moraes onde havia cerca de 145 edificações: 5 prédios altos, 15 ótimos predinhos baixos sem elevador e 125 sobrados e casas. Em pouco anos, além dos 5 prédios, foram construídos mais 20 e pelo andor dos santos vereadores, logo serão 30, tudo dentro da lei do “Plano Diretor Estratégico” da São Paulo. Na Rebouças, junto à Zona 1 nos Jardins, havia só o edifício PBK de 1985, com quinze andares, cujo habite-se foi pouco republicano.
Defende-se o adensamento com verticalização da Capital, por tratar-se de uma cidade erroneamente horizontalizada de 12 milhões de habitantes que vive longe de mobilidade adequada à uma Metrópole.
Pesquisa recente(1) conclui que em três décadas houve mais crescimento de áreas do território da cidade do que, proporcionalmente, crescimento da população urbana. Também, pesquisa(2) sobre o Processo de Verticalização de São Paulo constatou “que São Paulo era vertical e não, densa” .
Dentro destes parâmetros, defendo a verticalização, mas nunca com o genes de mesclagem de prédios encostados em casas na mesma quadra urbana e, em hipótese alguma, somando o casuístico e assombrosos 40 andares no alinhamento de passeios públicos com projeto arquitetônico ao sabor de investidor navegar em expressão incipiente, “fachada ativa”!
Trata-se de lamentável retorno à era do Edifício Martinelli, em quadra de enormes prédios sem qualquer recuo encostados entre si e nos passeios do Largo e rua São Bento, rua Líbero Badaró e Praça do Patriarca.
Em um ensaio jornalístico pode-se, por analogia, comparar os sintomas de ambientes urbanos no Centro Histórico de São Paulo e deduzir que seu abandono ocorreu, descentralizando a cidade, ao sabor da especulação, porque há muito mais ruas áridas como a Rua Boa Vista do que os poucos trechos aconchegantes, equipados, portanto até hoje habitados, como na av. São Luís, próximo à Praça da República.
Será que há famílias morando na 15 de Novembro?
Para compreender melhor São Paulo, recomendo a leitura de “VER A CIDADE”(3). O pequeno livro traduz, em textos e fotos, os desastres de São Paulo como a obra da Praça Roosevelt e o agressivo Minhocão. É um excelente instrumento de reflexão sobre ambientes urbanos, através de seus inúmeros signos, significados, que podem traduzir repertório à crítica da composição do espaço da cidade.
O incômodo prédio da foto anterior ( ou acima irineu ?) avisa que é melhor sair debaixo, mesmo estando à metade da altura, mesmo nos convidando a circular sob suas colunas que fatidicamente anula o ideário de recuo à rua Capitão Antônio Rosa! Imagina-se um espelho despencando e outros espelhando prédios na rua dos Pinheiros, esquina com a rua Fradique Coutinho, junto à mini estação de metrô, seus inconsequentes quiosques e floreiras que desprezam os pedestres a caminhar nos passeios públicos. Desastres! Vê-se ao fundo da foto, à direita, estético heliponto circular, da exemplar implantação do edifício Torre 2000, com 40 metros de recuo e amplo jardim arborizado e passeios públicos com árvores pau-ferro.
A arquitetura é parte vital do urbanismo. As referidas leis de uso e ocupação do solo, não sustentam a pretensa abrangência cultural, que se pretende criativa com olhar social à verticalidade, pois mesclaram ações de gestão na cidade e culminaram na decomposição fragorosa da paisagem urbana, já caótica.
Melhor expressa, amigo(4) do Colégio Bandeirantes, quando em palestra sobre “inovabilidade”, diz que é indispensável “…dedicar-se a aprender, através de estudos e experiência prática, os conhecimentos técnicos ou gerenciais (administrativos), conforme a decisão que venha a tomar”.
Mesmo que a próspera engenharia civil nacional sustente a arquitetura dessa megalomania de mil andares, neste caso até tangentes aos muros de arrimo da famigerada estação de metrô, ou em qualquer lugar, nenhuma dessas soluções pode apoiar-se em lógica plana, em raio de compasso, sobre a ocupação espacial de uma cidade.
Óbvio que a crítica aterriza nas audiências públicas. O resultado materializado na paisagem urbana, prova que o cumprimento de formalidades legais são inócuas pois escondem a extensão de um verdadeiro objetivo do lobby da especulação imobiliária, cada vez mais nociva.
No Museu do Ipiranga há maquete de gesso da cidade inteirinha. Hoje a sociedade, mesmo com a informática que imprime “maquete eletrônica”, não recebe do Estado um trabalho de urbanismo científico da cidade de futuro prospectivo, multidisciplinar, transparente em caminhos que ela, a sociedade, possa ler, criticar e sonhar com lei sustentável!
Temos um plano diretor anacrônico indexado às estações de metrô, pragmático ao gerenciar segmento da sociedade paulistana em ‘flats’ ou solitários moradores de “studios” com televisão e refeições compradas via telefone. Edifício sem garagem ou obra de estrutura com menos subsolo, fundações baratas e até liberar medonha garagem elevada no recuo frontal, substituindo áreas permeáveis e verdes.
Parodiando a tristeza: se, ao iniciar o século 18, a indústria acomodou minúsculas casas para as famílias de operários em vilas que compuseram a cidade industrial, hoje temos em São Paulo uma metrópole de trabalhadores, em que se pretende os abrigar sem famílias, ao lado de estações de metrô com mobilidade, ao desejo do empregador.
Foto acima publicada aqui na Gazeta. A simulação de 2014, junto ao arquiteto Celso de Moraes Franco, idealiza a ocupação de três das nove quadras comentadas. Implantação que ‘costura’ a transição entre os Jardins, Zona 1, e a cidade vertical desregrada. Temendo o hecatombe da tal lei “estratégica” na Rua dos Pinheiros, corremos para evitar o mal maior, ensaiamos prédio único sem casinha ao lado, em quadra verde, envolta por marquise rasteira ampliando passeios e viabilizando comércio e serviços. E na av. Rebouças atenua o pesadelo de ser “corredor” ou estrada intermunicipal.
Fica a certeza de que a sociedade, já silenciada massa de manobra, serve para eleger seus representantes, mas que após eleitos, evaporam na nova ‘ética’ pública da entidade PPP: Política-Público-Privada, num país de orçamento secreto!
(1) “Anexo”, Instituto de Pesquisa WRI Brasil).
(2) Arquiteta e Urbanista Dra. Nadia Somekh
(3) Profª Comunicação e Semiótica Dra. Lucrécia D’Alessio Ferrara
(4) Engenheiro de Produção ITA, Dr. USP, Isaac Kruglianskas.
Nadir Mezerani arquiteto, urbanista, professor e diretor cultural da Gazeta de Pinheiros