A Jornada Fantástica do Quarteto da Marvel: dos Quadrinhos ao Cinema
Rogério Candotti | [email protected] | blogdorogerinho.wordpress.com
Criado por Stan Lee e Jack Kirby, o Quarteto Fantástico estreou em novembro de 1961 com a publicação de Fantastic Four #1, marcando o que muitos historiadores especializados chamam Era de Prata dos quadrinhos (tópico que acende longas discussões entre fãs da nona arte). O grupo — formado por Reed Richards (Sr. Fantástico), Sue Storm (Mulher Invisível), Johnny Storm (Tocha Humana) e Ben Grimm (Coisa) — é considerado uma resposta direta à popularidade da Liga da Justiça, então novidade da DC Comics, e inspirado em personagens menos famosos dos gibis, como os Desafiadores do Desconhecido. Mas logo se destacou por sua abordagem inovadora. Ao contrário de heróis intocáveis e infalíveis, o Quarteto discutia, errava, e vivia como uma família disfuncional, algo inédito até então.
A série foi palco de inovações narrativas e visuais: Kirby introduziu cenários cósmicos grandiosos, e vilões e personagens complexos, como Galactus, Doutor Destino e o Surfista Prateado. Durante os anos 1960 e 1970, a revista consolidou a Marvel como potência editorial, e, na verve pouco contida de seu chefe de redação, foi apelidada de “O Maior Gibi do Mundo”. Mais tarde, escritores como John Byrne, nos anos 1980, revitalizaram o grupo, aprofundando as relações interpessoais e reforçando o caráter científico das aventuras. Mark Waid e Jonathan Hickman, em fases mais recentes, também trouxeram densidade e frescor à equipe, apostando em ficção científica e drama familiar.
No cinema, entretanto, a trajetória foi irregular, e o supergrupo nunca se firmou como a referência que foi nos quadrinhos. Em 1994, Roger Corman produziu uma versão de baixo orçamento jamais lançada oficialmente — feita apenas para manter os direitos da franquia. Em 2005, Tim Story dirigiu uma adaptação mais leve, com Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans e Michael Chiklis. Apesar do sucesso comercial, o filme e sua sequência de 2007 (O Surfista Prateado) foram criticados pela superficialidade.
A tentativa de 2015, dirigida por Josh Trank, buscava um tom sombrio e realista, mas foi marcada por interferências de estúdio, conflitos de bastidores e um resultado desastroso em crítica e bilheteria. Ainda assim, o Quarteto segue como uma das equipes mais importantes da Marvel, e agora uma nova adaptação prometida para o seu Universo Cinematográfico.
Fantástica surpresa
Visto que já há algum tempo a Marvel vem tropeçando tanto com crítica quanto com público, empilhando fracassos comerciais tanto na telona quanto no streaming, e tratando-se de um grupo que tradicionalmente entregou muito pouco nas telas mesmo passando por inúmeras mãos distintas, a expectativa sobre Quarteto Fantástico: Primeiros Passos era de ceticismo. Porém, contrariando o velho dito, dessa vez de onde menos se esperava surgiu algo de fato interessante.
A história se passa em um mundo alternativo ao do MCU conhecido, onde o Quarteto é (aparentemente) o único grupo de heróis do mundo. E onde eles fizeram um tremendo trabalho: eles são universalmente amados e respeitados, e a ciência produzida pelo Sr. Fantástico (Pedro Pascal) moldou um mundo mais avançado tecnologicamente. A trama se desenrola a partir da notícia da gravidez da Mulher Invisível (Vanessa Kirby), ao mesmo tempo em que a Surfista Prateada (Julia Garner) anuncia a chegada do Devorador de Mundos (Ralph Ineson), Galactus, uma ameaça que deixaria até o temido Thanos com medo.
Para a grata surpresa do público, o jovem e relativamente desconhecido diretor Matt Shakman entrega uma aventura de ficção científica bastante sólida, com personagens cativantes e uma estética marcante - algo que por si só já destacaria o filme do enfadonho e estático padrão de cinematografia que o estúdio impõe. Somente a apresentação de Galactus já vale o ingresso - e fica aqui a recomendação pela versão IMAX e 3D, que eleva o nível de imersão e ameaça do personagem a incríveis patamares. Com um aspecto retrofuturista, o filme extrai o que existe de melhor das características do grupo, e finalmente oferece ao público aquilo que sempre se esperou de uma aventura dos imaginautas, como são chamados nos quadrinhos.
Texto de Raphael Ranieri