As divas e as drogas

Rogério Candotti | [email protected] | blogdorogerinho.wordpress.com

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Depois de retratar a vida de Jacqueline Kennedy e da Princesa Diana, o cineasta chileno Pablo Larraín encerra a sua trilogia com uma biografia sobre os últimos dias da melhor cantora de ópera de todos os tempos, vivida por Angelina Jolie.
Maria (2024) estreou nos cinemas brasileiros apenas nesta quinta-feira (16) sendo um forte candidato ao Oscar, principalmente à Melhor Atriz, Figurino e Fotografia. A trama em flashbacks foi inspirada nas melhores entrevistas da diva, resumidas com maestria pelo documentário Maria Callas — Em Suas Próprias Palavras (2017), disponível no Reserva Imovision. De fato, aquela soprano americana de gestos nobres e delicados com uma voz lírica reconfortante interpretava dramaticamente como se estivesse na Idade Média ao lado dos compositores originais. Apesar de ter sido amante de Aristóteles Onassis enquanto o bilionário esteve casado com Jacqueline Kennedy, Callas (1923 – 1977) teve uma infância pobre no subúrbio de Nova York até estudar no Conservatório de Atenas durante a Segunda Guerra Mundial onde aprendeu a cantar aos 13 anos de idade. Anos depois de se profissionalizar, Maria Anna Cecília Sofia Kalogeropoulos teve de emagrecer 37 kg porque transpirava demais, movendo-se com dificuldade no palco. Acontece que no fim dos anos sessenta ela acaba entrando em depressão, por isso perde a voz enquanto uma doença degenerativa chamada dermatomiosite leva-a à morte por infarto fulminante ao lado de empregados tidos como irmãos em sua solitária mansão em Paris.
O diretor Franco Zeffirelli em seu filme Callas Forever (2002) supõe que a morte daquela divina cantora (Fanny Ardant) poderia ter sido evitada graças a um convite do amigo Larry Kelly (Jeremy Irons) a fim de estrelar um especial de TV interpretando suas famosas peças.

No documentário disponível no Prime Vídeo a sua fã de cara lavada foi vítima de uma doença degenerativa semelhante: a síndrome da pessoa rígida (SPS), embora tenha conseguido se recuperar a tempo de cantar Edith Piaf na abertura das Olimpíadas de Paris (2024). Eu Sou Celine Dion (2024) mostra a rotina singela da canadense de 56 anos, dividida entre a fisioterapia e o cuidado com os filhos gêmeos Nelson e Eddy de 13 anos de idade, desde o falecimento do marido, René Angelil em 2016, por câncer na garganta.
Para completar o trio das divas contemporâneas temos Mariah Carey, cantando recentemente em São Paulo, e Whitney Houston (1963 – 2012) que morreu afogada acidentalmente numa banheira de hotel com água fervendo, entorpecida por cocaína — segundo a autópsia. A prima de Dionne Warwick nasceu num gueto de Newark na região metropolitana de Nova York onde aprendeu a cantar no coral gospel da igreja vizinha ao lado da mãe Cissy, falecida em 2024 aos 91 anos de idade. A artista mais premiada de todos os tempos poderia ainda estar no auge da carreira, a exemplo da colega Mariah, caso não entrasse no mundo das drogas ainda na infância por intermédio dos irmãos. Contudo, foram os pais que a impulsionam ao estrelato com ajuda da affair e melhor amiga, Robyn, e do produtor musical Clive Davis, antes de Whitney se casar com o rapper Bobby Brown. O objetivo da Queridinha da América era cantar músicas grandiosas para o maior número de pessoas possível com todo o talento e a extensão vocal mezzo soprano que Deus lhe deu, comparada a Frank Sinatra, Aretha Franklin e Elvis Presley. Apenas o Movimento Negro Americano não apoava a colega de mesma etnia, vaiando-a no evento em que conheceu o futuro marido, porque para eles, as músicas da afrodescendente de R&B contemporâneo carecia de Soul e Funk em seu extenso repertório, “soando branco demais”. Conforme o casamento e a relação familiar se deterioraram, aumentava seu consumo excessivo de álcool, crack e cocaína, sobretudo após a estreia de O Guarda Costas (1992), disponível no Max. Mesmo com a Bíblia debaixo do braço ou na cabeceira da cama, a ex-cantora evangélica de rosto angelical acabou sucumbindo às drogas de acordo com a cinebiografia I Wanna Dance with Somebody — A História de Whitney Houston, disponível no Prime Vídeo, e os documentários: Autópsia de Famosos — Whitney Houston e Whitney Houston: As I Am; ambos disponíveis gratuitamente no Youtube.
Édith Giovanna Gassion (1915 – 1963), de acordo com a cinebiografia protagonizada por Marion Cotillard, nasceu nas ruas miseráveis de Paris — comparadas às do clássico de Victor Hugo. Piaf — Um Hino ao Amor (2007) foi abandonada pela mãe e criada pela avó num prostíbulo enquanto o Pai levava uma vida nômade trabalhando em espetáculos circenses. Dos três aos sete anos de idade aquela garotinha charmosa permaneceu cega em razão de uma queratite, sendo curada através das orações à Santa Teresinha pelas amáveis prostitutas, especialmente a caridosa Titine (Emmanuelle Seigner). Mais tarde, ao lado do pai, La Môme Piaf, mostrou seu talento inato pela primeira vez cantando o hino da França, La Marseillaise, aos pedestres curiosos de lá. Ocorre que em consequência daquela infância sofrida, sua saúde deteriorou rapidamente em um corpo franzino de 1 m 42 cm de altura. Para piorar, um sério acidente de carro causou-lhe graves dores nas costas, provocando dependência em morfina aliado ao antigo vício do álcool. As únicas pessoas que amava morreram tragicamente: sua única filha, Marcelle foi vítima de meningite aos dois anos de idade e o grande amor de sua vida, o boxeador Marcel Cerdan (Jean-Pierre Martins) morreu num desastre de avião, inspiração dos sucessos subsequentes: “Hymne à l'amour” e “Mon Dieu”.
Sabendo que o fim estava próximo, a melhor cantora da França grava em 1960 Non, je ne regrette rien (Não, Eu Não Me Arrependo de Nada), ao estilo “My Way” de Frank Sinatra, de modo a confirmar com orgulho o comportamento teimoso daquela mulher encantadora a vida inteira.


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