São Paulo cresce, mas o risco climático cresce junto
O último verão não foi um episódio isolado, mas a repetição de um padrão que São Paulo já conhece: chuvas intensas, alagamentos, quedas de árvores, deslizamentos e mortes evidenciam que o problema deixou de ser excepcional e passou a ser estrutural — e o mais grave é que já sabemos por quê.
Não é falta de plano. O Brasil tem um Plano Clima, o Estado de São Paulo também tem o seu, com metas até 2050, e o município igualmente estruturou sua política climática; ainda assim, a cidade continua sendo produzida como se o risco climático não existisse.
A transformação urbana recente é expressiva. A ampliação da verticalização incorporou cerca de 11,1 milhões de m² adicionais, gerando aproximadamente 44,5 milhões de m² de potencial construtivo que, sem integração com drenagem urbana, áreas verdes, infraestrutura e gestão de risco, resulta em mais impermeabilização, maior escoamento superficial e pressão crescente sobre sistemas que já operam no limite.
O efeito aparece de forma imediata no cotidiano: mais pontos de alagamento, interrupções frequentes, prejuízos econômicos e, em situações mais graves, perdas de vidas que poderiam ser evitadas.
Regiões como Pinheiros sintetizam esse processo, em que a proximidade com o rio, associada à alta densidade e à drenagem insuficiente, transforma episódios de chuva intensa em crises urbanas recorrentes.
O Plano de Ação Climática do município existe, mas não orienta as decisões que de fato moldam o território, uma vez que zoneamento, parâmetros construtivos e dinâmica imobiliária continuam operando em outra lógica, sem incorporar efetivamente o risco climático.
Na prática, convivem dois modelos: um que reconhece o problema e outro que continua ampliando suas causas — e é esse segundo que segue prevalecendo. São Paulo, portanto, não apenas sofre com eventos extremos, mas contribui para ampliá-los no próprio território urbano.
Não se trata de impedir o crescimento, mas de interromper um modelo que transforma crescimento em vulnerabilidade.
Sem integrar clima ao planejamento urbano, a cidade continuará repetindo o mesmo padrão — e os números já mostram isso. Nos últimos anos, episódios de chuvas intensas vêm acumulando mais de 190 mortes no Estado de São Paulo — sendo dezenas delas na capital —, enquanto a cidade segue ampliando sua capacidade construtiva em dezenas de milhões de metros quadrados. Ao mesmo tempo, eventos extremos se tornam mais frequentes e concentrados, pressionando uma infraestrutura que não acompanha esse ritmo. O resultado é claro: mais alagamentos, mais prejuízos e mais perdas humanas evitáveis.
*Ivan Carlos Maglio é engenheiro civil, Doutor em Saúde Pública e PosDoutor em Adaptação Climática e Planejamento Urbano