Eu, que morei cá e acolá, tenho o umbigo enterrado na Rua Costa Carvalho 180, pelo meu avô Duilio Salatin, antigo jogador da Lazio de Roma.
Mamãe, Cleofe, morreu na mesma casa, em 2015. “De repente, não mais que de repente”, como diz o poeta Vinícius. Papai, o jornalista Itaboraí Martins, paulistérrimo, mudou de plano na mesma querência, em 2020. Nada de Covid! Uma vela que se extinguiu, graças a Deus.
Pensando em velas e vidas, lembro-me de D. Zélia, a mais antiga moradora de nossa região, na antiga Travessa Costa Carvalho que mudou o nome para Ernest Jost. Um símbolo de garra e resistência. Viúva do seu Expedito, eletricista de todos e herói na revolução de 1930. Tinha orgulho de ser paulista e pinheirense.
D. Zélia faleceu sexta passada, dia 22 de agosto, o mês de Pinheiros, festejado no dia 15. Vida longa é uma festa celebrada com muita alegria na áfrica. Raiz de seu Expedito e de D. Zélia: uma rainha iorubá.
Mas, uma rainha triste no final da vida. Cansada de tanto deboche por espaços de gastronomia e beberagens emergentes e tome-lhe muito, muito barulho até às 04 da madruga. Isso todas as quintas, sextas, sábados e (ufa!) domingos: o dia do repouso semanal remunerado, desde os idos de Getúlio Vargas.
Dona Zélia – nascida em 1922- vivia com as filhas Nair, Neuza e a neta jornalista: Iguaracy. A vida destas mulheres foi infernizada não só pelo barulho nauseabundo, que furta o sono, como pela urina de forasteiros. A parede de D. Zélia virou mictório.
O que diriam antigos moradores da Rua Costa Carvalho? O Dr. Barraquet e D. Odette; a D. Nair e seu Arnaldo; o seu Pedroso e a D. Tutu? Meu tio Perseu e minha tia Aracy? O seu José e a Noelly? E a D. Clarice, a mãe de Cássia, que está sendo torturada desde fevereiro deste ano, o que diria? A filha não pode dormir antes das quatro horas da manhã. Como ela, tantos e tantos...
Os moradores da Rua Costa Carvalho não aguentam tanta invasão! Não dá mais! Nossa memória é longa. Nossa paciência, cada vez menorzinha! Honremos a memória de D. Zélia e de nossos ancestrais, velhos pinherenses.
Para os forasteiros, lá vai a canção de Caetano Veloso na bela voz de Maria Betânia: “Purificar o Subaé”. É por aí, minha gente.
*Cléo Agbeni Martins, pinheirense, cronista e romancista.
**Purificar o Subaé* ", composta por Caetano Veloso e famosa na voz de Maria Bethânia, é uma canção de forte protesto ambiental e social. A interpretação foca na denúncia da poluição do Rio Subaé, da Bahia, e da degradação causada por um "progresso vazio".