O jornalismo local nos salvará

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“Qual é o lugar do jornalismo na sociedade midiatizada de hoje ou do futuro que se prenuncia na lógica dos algoritmos e da inteligência artificial?” - Boa pergunta, Ricardo Z. Fiegenbaum.
Neste texto para o ‘ObjETHOS’,  o jornalista e doutor em comunicação lembra que “o jornalismo pode ser definido como uma instituição que ordena, organiza e reduz a realidade observada”, oferecendo às pessoas uma possibilidade de sentido em relação aos acontecimentos que o público é incapaz de observar por si. “Nesse sentido, a relevância do jornalismo para qualquer sociedade está na sua qualidade e capacidade para produzir os discursos que conectam as pessoas com quaisquer acontecimentos que as afetam”, escreveu.
Isso é um norte importante: produzir discursos que conectam as pessoas com acontecimentos que as afetam. Aí eu pergunto a vocês: onde estão os acontecimentos que mais afetam as pessoas (e que essas pessoas tenham consciência de que tais acontecimentos realmente as afetam)?

Dez semanas atrás, repercutimos um estudo da UFSC sobre hábitos de consumo de informação da população de Florianópolis. A principal razão para as pessoas consumirem notícias, sintetizou a Lívia na NFJ#505, é “por interesse pessoal ou para agir na comunidade”.
Da capital catarinense para Minneapolis, onde, no começo de junho, um evento do ‘Institute for Nonprofit News’ reuniu representantes de veículos locais para discutir métricas de impacto capazes de contornar a lógica dominante dos ‘pageviews’, etc. Na oportunidade, a jornalista Angilee Shah disse que o ‘Charlottesville Tomorrow’, veículo em que é editora-chefe e CEO, não quer salvar o jornalismo. “Nosso objetivo é criar algo útil e vital para a nossa comunidade”, acrescentou. Mas como criar algo útil? Qual é a informação útil para uma comunidade?
O professor da Universidade Estadual de Londrina Silvio Demetrio, neste artigo para o ‘Observatório de Imprensa’, chama a atenção para a ascensão do chamado “neopublicismo” – uma versão contemporânea de um fenômeno que remonta o Iluminismo, quando a invenção da imprensa permitiu uma circulação sem precedentes de informação (e desinformação). Aliás, um parêntese. No seu livro mais recente, Nexus, que conta a história das redes de informação humanas para alertar sobre os perigos distópicos da IA, o historiador Yuval Noah Harari volta parte da sua atenção para os momentos posteriores à invenção de Gutemberg.
Naquela época, o crescimento exponencial na circulação de informações deu força às ideias que fortaleceram os tribunais da Inquisição. A caça às bruxas se tornou uma política oficial da Igreja Católica a partir de uma rede de mentiras que soube usar a nova tecnologia de informação para se estabelecer com tamanha força que se tornou autoevidente. A história é cíclica, galera. O neopublicismo, segue Demetrio, “ao mesmo tempo que amplia a liberdade de expressão e democratiza o acesso à informação, também gera uma crise de legitimidade e qualidade na esfera pública”. Por um lado, urge a necessidade de regulação das (novas) redes de informação. Por outro, atores sociais como o jornalismo precisam se adaptar. “O jornalismo não desaparecerá, mas sua relevância dependerá de sua capacidade de se diferenciar do ruído informacional e reafirmar seu papel como um pilar essencial da democracia”, escreveu o professor da UEL.
O desafio é acima de tudo epistemológico, pois o ambiente ultramidiatizado atual alterou, como estamos observando nos últimos tempos, a forma de construção da verdade (ou do que é considerado verdadeiro pelas pessoas). O que resta ao jornalismo? Como seguir se mostrando (e sendo considerado como tal) um “pilar essencial da democracia”? (Isso se for de fato a democracia a forma de organização que as sociedades desejarem...)
Se as pessoas acham úteis as informações que as possibilitam agir em suas comunidades, e levando em consideração que essas informações são (as mais) passíveis de serem checadas a partir da observação direta, eu diria o seguinte – e sendo propositalmente exagerado e dramático: o que resta ao jornalismo é o noticiário local. Porque se a verdade pode ser fluida, os fatos não podem. E se tem algo que está na essência do jornalismo é a transformação dos fatos em discursos.
Quando observador e narrador estão perto do fato, a distância da percepção entre quem observa o fato de quem o narra tende a ser menor. A margem de fluidez da verdade diminui. É aí que mora a aproximação do jornalismo com o seu público. É aí que (re)nasce a credibilidade.
Inclusive quando público e jornalismo estão próximos, fica mais fácil de o primeiro entender as limitações do segundo. E o mais louco é que não se trata de inventar a roda, nem fazer dancinhas no ‘TikTok’. A população de Floripa nos deu a real: não importa o formato. O que importante é fornecermos informações que façam a diferença na vida das pessoas. E conseguimos fazer isso quando noticiamos os acontecimentos que as afetam diretamente.
*Fonte ‘Farol Jornalismo’


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