Diligência parlamentar e científica entra nas casas do Jardim Arpoador no Butantã, para constatar os impactos da contaminação dos moradores pela Akzo Nobel

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Pela primeira vez em 50 anos, comitiva com parlamentares, defensores públicos e cientistas vistoria o território e ouve relatos de adoecimento das famílias atingidas.
Pela primeira vez em cinco décadas de abandono e silêncio institucional, os moradores do Jardim Arpoador, no Butantã, receberam em seu próprio território uma comissão de parlamentares, defensores públicos, juristas e cientistas para ver de perto e constatar, in loco, as graves consequências do passivo químico deixado pela multinacional Akzo Nobel, nos terrenos dos imóveis e na sofrida população. Realizada no último dia 15 de julho, a Diligência Intersetorial e Parlamentar foi proposta pela deputada estadual Paula Nunes, da Bancada Feminista (PSOL), durante a histórica audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) no dia 28 de abril deste ano.
Vistoria e entrevistas

A diligência teve início às 14h30 e percorreu o bairro por cerca de duas horas e meia, realizando vistorias e a escuta direta de moradores de nove residências. No total, a ação mobilizou mais de 50 participantes. Além dos moradores, participaram seis parlamentares das três esferas, nove representantes políticos, três membros do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado (DPE-SP), seis cientistas e especialistas vinculados à Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), Unifesp e USP, e sete representantes de conselhos municipais e locais, como o CADES-Butantã, o Conselho Participativo Municipal (CPM) e o Conselho de Saúde (STS).
Situação grave
Para a deputada estadual Paula Nunes, idealizadora da iniciativa: “Existe uma diferença muito grande quando falamos de uma grave situação como essa olhando documentos e quando estamos de fato no território. Ouvimos os moradores, entramos em suas casas, vimos os poços de monitoramento, exames de sangue comprovando a contaminação por essas substâncias tóxicas. E isso faz muita diferença para os parlamentares, especialistas, ver de perto tudo isso. Ouvir o sofrido depoimento de senhoras que estão gravemente doentes, com várias patologias, há décadas, consequência da exposição a essas substâncias."
Depoimentos alarmantes
Jeffer Castelo Branco, diretor da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), destacou a gravidade da exposição constatada nas residências: "Durante a diligência pudemos constatar a gravidade das narrativas das famílias profundamente afetadas por doenças suspeitas de terem origem ambiental, com rotas completas de exposição humana ao longo do tempo. Em algumas casas, ainda é nítido o odor que provoca ardência nos olhos e no nariz, característico da exposição crônica a um verdadeiro coquetel de contaminantes químicos."
A diretora do Instituto de Saúde Socioambiental, Rafaela Rodrigues, avalia que se trata de um cenário que requer uma investigação urgente: "Os moradores estão atualmente desassistidos em relação às patologias graves que podem ser diretamente atribuídas à presença desses agentes químicos em seus territórios."
A deputada estadual Mônica Seixas destacou que é vergonhosa a situação da contaminação do solo no Jardim Arpoador: “Assim como outros crimes ambientais, a falta de informação é proposital para que as pessoas não saibam os riscos que correm. Há uma sensação de completa insegurança nos arredores da fábrica. Tanto a Akzo Nobel quanto o governo estadual devem responder sobre esse crime ambiental”. Para a vereadora Luana Alves: "É inadmissível que uma empresa com lucros internacionais siga de forma impune prejudicando a saúde da população".
Moradores
desassistidos e doentes
O socioambientalista Thiago Ávila disse após a diligência que a contaminação evidentemente ainda persiste: “As pessoas estão morrendo de câncer e outras doenças, o poder público se omite e a população precisa se organizar contra essa violação terrível. Se a gente não impedir esse tipo de destruição ambiental, o futuro será de adoecimento, de perda das comunidades e de perda da vida.”
Ciclo invisível de 50 anos
Para Fabíola Lago, cofundadora da Rede Ambiental Butantã, a diligência foi mais um marco para quebrar o ciclo de invisibilidade que dura 50 anos: "Conscientizar a população do entorno de que suas patologias não são casuais, mas fruto de anos de exposição a contaminantes tóxicos, com o apoio de parlamentares e especialistas de alto rigor técnico, é o caminho para exigir justiça ambiental, indenizar as famílias que perderam entes queridos e tiveram seus imóveis desvalorizados."


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