Senciência e bem-estar animal nos Serviços Assistidos por Animais

Por que reconhecer que o animal sente é a base de qualquer intervenção responsável

Por PRISCILA GONZALEZ
7 Min

Senciência e bem-estar animal nos Serviços Assistidos por Animais
Divulgação
O avanço dos Serviços Assistidos por Animais no Brasil tem colocado em evidência uma questão que não pode ser deixada em segundo plano: o bem-estar animal dentro dessas práticas. Em um cenário onde cães participam de atividades em hospitais, centros de reabilitação e ambientes educacionais, torna-se inevitável perguntar como garantir que esses animais sejam respeitados em sua integridade física e emocional.
A resposta passa diretamente por um conceito central na ciência contemporânea: a senciência animal.
Reconhecer que os animais são sencientes significa compreender que eles não apenas reagem a estímulos, mas são capazes de sentir emoções, experimentar prazer, desconforto, medo e segurança. Esse entendimento transforma completamente a forma como as intervenções assistidas por animais devem ser conduzidas.


Muito além do benefício humano

Os Serviços Assistidos por Animais são amplamente reconhecidos por seus impactos positivos na saúde mental, na reabilitação física e na qualidade de vida das pessoas. A presença de um cão pode favorecer a interação social, reduzir a ansiedade e tornar o ambiente mais acolhedor. Limitar a análise a esses benefícios, no entanto, é um erro conceitual que compromete a integridade da prática.
"Não existe intervenção ética se o bem-estar do animal não for prioridade. O benefício precisa ser mútuo."
Esse princípio, expresso pelo médico-veterinário Marcelo Müller, com trajetória nas áreas de saúde, pesquisa e bem-estar animal, redefine o papel do animal dentro dessas práticas. Ele deixa de ser visto como um recurso e passa a ser reconhecido como um indivíduo participante.

O que a senciência muda na prática

Para Emi Parente, especialista em Intervenções Assistidas por Animais e fundadora da PATAE Academy, o reconhecimento da senciência estabeleceu um novo padrão de exigência para a área.
“Quando o responsável pelo animal passa a compreender suas reais necessidades como indivíduo, ele assume verdadeiramente a responsabilidade pela vida desse ser.
Reconhecê-lo e tratá-lo como um ser senciente não é apenas um princípio, é o que sustenta intervenções mais éticas, conscientes e, sobretudo, eficazes.”
Programas responsáveis devem incorporar critérios objetivos de bem-estar animal, entre eles:
• avaliação comportamental contínua
• identificação de sinais de estresse
• respeito ao tempo de trabalho do animal
• períodos adequados de descanso
• adaptação das atividades ao perfil individual de cada cão
• Certificação e treinamento humano quanto as necessidades do cão
• Aprimoramento constante das práticas
Essas medidas não são recomendações opcionais. São requisitos fundamentais para garantir intervenções seguras e eticamente sustentáveis.

O papel técnico da medicina veterinária

Nesse contexto, a atuação do médico-veterinário é estruturante. O acompanhamento profissional vai muito além de uma avaliação clínica pontual e inclui uma leitura contínua do estado físico e comportamental do animal.
"O veterinário precisa garantir que o animal esteja saudável, equilibrado e apto para participar das atividades, tanto do ponto de vista físico quanto comportamental."
As responsabilidades técnicas envolvem:
• controle sanitário rigoroso
• vacinação atualizada
• avaliação clínica periódica
• monitoramento do comportamento durante e após as sessões
• identificação precoce de sinais de desgaste físico ou emocional
"O bem-estar do animal não pode ser presumido. Ele precisa ser acompanhado de forma contínua", reforça Müller.

O animal como parceiro de cuidado

Uma das transformações mais relevantes dos Serviços Assistidos por Animais foi a mudança de perspectiva sobre o papel do cão. Deixou de ser tratado como ferramenta e passou a ser compreendido como participante ativo do processo.
"O cão não é um instrumento terapêutico. Ele é um parceiro dentro do processo. E como qualquer parceiro, precisa ser respeitado."
Essa visão está alinhada aos princípios modernos de bem-estar animal e ao próprio conceito de senciência. Quando o animal participa de forma voluntária, confortável e segura, a interação tende a ser mais genuína e os benefícios, mais consistentes.

Benefícios sustentáveis para todos

Estudos apontam que a interação com animais contribui para a redução do estresse, melhora do humor e maior engajamento em atividades terapêuticas. Para que esses resultados sejam sustentáveis, porém, é necessário que o animal também esteja em equilíbrio.
"Um animal estressado ou desconfortável não apenas perde qualidade de vida, mas também compromete a efetividade da atividade."
Por outro lado, quando o bem-estar é respeitado, o animal apresenta comportamentos mais estáveis, favorecendo interações positivas e intervenções de maior qualidade.

Um novo olhar sobre cuidado e responsabilidade

Os Serviços Assistidos por Animais representam um dos campos mais ricos da integração entre ciência, saúde, comportamento animal e reforça o elo entre humanos e animais. Ao mesmo tempo em que promovem benefícios para pessoas, desafiam profissionais e instituições a adotarem padrões elevados de responsabilidade ética.
"Estamos evoluindo para uma visão onde o cuidado precisa ser equilibrado. Não se trata apenas do que o animal pode oferecer, mas do que ele precisa para estar bem."
Ao integrar senciência, bem-estar animal e práticas baseadas em evidências, os Serviços Assistidos por Animais mostram que é possível construir intervenções que respeitam todas as formas de vida envolvidas. Ciência e responsabilidade ética não são caminhos opostos. Elas se fortalecem quando caminham juntas.

 

 

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PRISCILA GONZALEZ NAVIA PIRES DA SILVA
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