O agronegócio brasileiro atravessa seu período mais crítico desde a crise de 2002. Dados da Serasa Experian mostram que 2024 terminou com 2.050 pedidos de recuperação judicial, o maior volume desde o início da série histórica em 2005. O movimento se intensificou em 2025: o 3º trimestre registrou 612 novos pedidos, alta de 18% sobre igual período de 2024, com o campo respondendo pela maior parte do avanço. O setor rural liderou os requerimentos entre julho e setembro, somando 228 solicitações, o maior número trimestral já registrado para atividades agropecuárias.
As estatísticas de insolvência também se agravaram no pós-RJ. Segundo a Boa Vista, entre 32% e 41% das empresas que concluem o processo de recuperação judicial acabam falindo em até 24 meses, com dados consolidados em 2023 e atualizados no 1º semestre de 2025. Essa proporção é ainda maior em segmentos fortemente dependentes de crédito rural, o que acende um alerta entre cooperativas de crédito, responsáveis por parcela relevante do financiamento ao campo.
Para 2026, o conjunto desses fatores projeta um ambiente de inadimplência estrutural, deterioração de garantias, encurtamento de liquidez e tensão crescente no cooperativismo financeiro. A avaliação é de Luis Vivanco, economista-chefe da SMI Consulting Group, doutorando em Economia pela FGV e especialista em risco com mais de 20 anos de atuação. “A crise ocorrida em 2025 não é episódica. O produtor rural opera com margens comprimidas, custo financeiro elevado e impacto direto de eventos climáticos severos que reduziram produtividade. Em muitos casos, a recuperação judicial tem sido apenas uma postergação da insolvência”, afirma.
Pressão cresce sobre as cooperativas de crédito
As cooperativas de crédito, responsáveis por mais de 30% do financiamento rural segundo o Banco Central, já sentem o impacto do novo ciclo de inadimplência. O valor das garantias reais rurais — especialmente terras, estruturas agrícolas e silos — recuou entre 8% e 15% nas regiões afetadas por estiagens e enchentes em 2024 e 2025, conforme dados do Ipea e de institutos estaduais de terra.
A necessidade de reforçar provisões aumentou. O Relatório de Estabilidade Financeira do BC de outubro de 2025 aponta alta de 27% nas operações reestruturadas entre cooperados agrícolas na comparação anual. Paralelamente, a volatilidade cambial e as oscilações nos preços de soja, milho e proteína animal reduzem o fluxo de recebimentos e a capacidade de reciclagem de capital das cooperativas.
Vivanco reforça que os sinais de estresse no campo deixaram de ser pontuais. “Há queda persistente do caixa operacional, aumento relevante da dívida de longo prazo e incapacidade de honrar compromissos mesmo após renegociações. Cooperativas expostas a localidades afetadas por estiagens prolongadas no Centro-Oeste ou enchentes recorrentes no Sul tendem a enfrentar maiores perdas em 2026”, explica.
Alavancagem crítica e fluxo de caixa comprimido no agro
Produtores rurais e agroindústrias carregam hoje sua maior alavancagem desde 2015. Levantamento do Banco Central referente ao 2º trimestre de 2025 mostra que o endividamento médio do setor agropecuário cresce há oito trimestres consecutivos, impulsionado por sucessivas tomadas de crédito voltadas tanto ao custeio quanto ao fechamento de déficits provocados por eventos climáticos.
A alta dos juros entre 2021 e 2024 ainda produz efeito retardado: o custo financeiro sobre operações contratadas nesse período segue pressionando o fluxo de caixa. Em 2024 e 2025, enchentes no Sul, estiagens no Sudeste e perdas no Norte derrubaram a produtividade agrícola e aumentaram o descompasso entre receita e dívida — combinação que deve gerar novo aumento de falências pós-RJ em 2026.
O risco oculto no crédito rural em expansão
Apesar do cenário restritivo, o crédito rural continua crescendo. Estatísticas do Banco Central indicam que o estoque total aumentou 9,4% em 12 meses até agosto de 2025. A expansão, porém, esconde fragilidades. Parte significativa dos produtores opera com margens estreitas e estrutura de custos elevada, o que reduz sua capacidade de pagamento futuro.
Para Vivanco, o movimento cria uma espécie de “bolha silenciosa” no setor. “Quando a carteira de crédito cresce mais rápido que a geração de caixa, a inadimplência futura se torna inevitável. Sem avaliação rigorosa das garantias e dos limites concedidos, cooperativas podem carregar ativos problemáticos que só vão emergir quando o ciclo virar”, afirma.
Recomendações para minimizar perdas em 2026
Diante do cenário, Vivanco lista medidas consideradas urgentes para instituições cooperativas:
• realização de stress tests por cultura, região e perfil produtivo;
• revisão dos limites por cooperado, por safra e por área geográfica;
• fortalecimento das provisões e reavaliações periódicas das garantias;
• criação de comitês especializados em risco agro;
• monitoramento contínuo de inadimplência, prazos de recebimento, concentração setorial e exposição climática.
Segundo o economista, “o cooperativismo financeiro só atravessará 2026 com estabilidade se fortalecer sua governança de risco agora. Identificar sinais precoces de fragilidade do produtor rural será o divisor de águas entre preservar liquidez ou enfrentar perdas ampliadas”.
Cenários para 2026
A combinação de crédito pressionado, volatilidade operacional e aumento das falências pós-RJ coloca o setor diante de três trajetórias prováveis:
• Cenário base: manutenção do alto volume de recuperações e inadimplência persistente.
• Cenário adverso: avanço das falências após a recuperação judicial, com impacto direto nos balanços das cooperativas.
• Cenário positivo: instituições que ajustarem rapidamente suas políticas de crédito reduzem perdas e preservam liquidez mesmo diante de um ambiente desafiador.
Vivanco conclui que “o próximo ano será determinante para testar a capacidade de resiliência das cooperativas de crédito e do agronegócio. A forma como crédito, garantias e renegociações forem conduzidos agora definirá quem chega a 2027 em equilíbrio e quem ficará pelo caminho”.
Sobre a SMI Consulting Group
A SMI Consulting Group transforma a gestão financeira de empresas com consultorias e mentorias altamente técnicas, práticas e voltadas a resultados. Fundada em 2020, a consultoria atende toda a América Latina com metodologia própria e equipe formada por mestres e doutores. É referência em controladoria estratégica, planejamento financeiro e análise de riscos, com forte atuação nos setores de cooperativas de crédito, agronegócio, saúde, indústria e área governamental. Com sede no Rio de Janeiro (RJ), também realiza cursos, workshops e eventos, e tem como missão capacitar líderes financeiros a tomarem decisões mais inteligentes, baseadas em dados e com impacto estratégico.
Luis Vivanco é doutorando em Economia pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestre em Economia pelo IBMEC. Com mais de 20 anos de experiência como professor das maiores escolas de negócios do país, é referência no ensino de Economia e Finanças Corporativas. Atuou como Economista Sênior vinculado à Presidência da Casa da Moeda do Brasil, além de exercer, atualmente, o cargo de Economista Chefe e consultor em diversas cooperativas de crédito. É autor de três livros pela Editora Ferreira — Economia para Concursos, Questões de Economia e Estatística Simplificada —, que refletem seu compromisso com a disseminação de conhecimento técnico acessível e aplicável. Com uma trajetória que combina pesquisa, prática e docência, Luis é um nome de peso no cenário econômico e educacional brasileiro.
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RAQUEL TRISTAO DOURADO
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