Dá para medir o amor?
*Daniel Guimaraes Tedesco
Rodrigo Leal
Escutei uma frase que me deixou bem inquieto: “Tudo pode ser quantificado, inclusive o amor”. Acho que os dois lados do meu cérebro entraram em algum conflito: o lado das humanas x o lado das exatas.
De fato, hoje estamos na era dos dados e da Inteligência Artificial e existe um “fetiche” pelos números e pela extração de soluções a partir destes. Mas será que podemos extrapolar essa quantificação para absolutamente tudo? E se podemos medir, será que dá para prever comportamentos de alguma forma?
Este assunto me lembra automaticamente da Física. Newton não introduziu apenas a Mecânica apenas como uma ferramenta de determinação de movimentos, mas um novo modo de pensar: O determinismo mecânico, que sustentava que todos os eventos eram previsíveis e causados por leis naturais, estendido para explicar ações humanas e dinâmicas sociais. Apesar de ter interesse nisto, tendo a pensar que a complexidade e diversidade dos comportamentos e estruturas sociais não permitem este determinismo. Por enquanto, o lado das humanas está ganhando.
Bom, depois de uma intensa batalha interna, creio que podemos realmente quantificar tudo sim. Quantificar significa determinar a quantidade de algo em relação a uma unidade específica. Dá para medir o amor? Existe uma unidade específica de amor? O Sistema Internacional de Unidades ainda não tem uma unidade específica para isso, mas podemos pensar como os cientistas que usam um padrão estabelecido em relação a alguma coisa.
Talvez no intuito de entender se podemos medir tudo, precisamos voltar atenção a palavra “padrão”. Neste sentido, olhando essa quantificação de sentimentos não há realmente um padrão. Nossa mente até tenta encontrar padrões de forma empírica nas nossas relações interpessoais, mas nem sempre um sorriso quer dizer felicidade, ou um olhar atento não quer dizer que há atenção. Em alguns destes sentimentos e emoções até podemos formular algumas hipóteses, como as famigeradas microexpressões faciais, que é um campo controverso pela repetibilidade dos experimentos. Para haver quantificação, precisamos de método!
Ainda pegando emprestado um pouco da física, podemos pensar como Ernst Mach, que foi um físico-filósofo do Séc.XIX. Na visão dele, o conceito de movimento não tem significado em si mesmo, apenas em relação a outros objetos. Sendo assim, se imaginarmos um universo com apenas uma partícula, não podemos dizer ao certo se ele está em movimento. Apesar do princípio ser também controverso, ele traz luz para discussão da quantificação, feita a partir de comparações entre referenciais. Precisamos pelo menos de um par para comparar e quantificar as coisas. Como saber se algo é bom se não existe outra contraparte ruim?
Confuso? Pode ser que os dois lados do seu cérebro também estejam brigando. No mais: ame, seja feliz, mas pense sempre se você realmente está amando e sendo feliz.
*Daniel Guimarães Tedesco é físico e teólogo, com doutorado em Ciências pela UERJ. É professor dos cursos de Exatas da Escola Superior de Educação no Centro Universitário Internacional Uninter
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